da humildade do criar

..."Obcecado pela linguagem escrita, monólogo gráfico esperançado apenas na réplica mental de hipóteticos leitores, quase que me esquecera de reparar no milagre da oralidade, da comunicação directa, franca, livre, sem ambições quiméricas de antologia e perenidade. A palavra temperada pelo sal da boca. arredondada pela graça labial, ágil ou morosa consoante a urgência da oração, e sempre ajudada pela presença e atenção dos ouvintes. A repetição permitida, e até desejada em certos momentos, o gesto a sublinhar e a fortalecer a intenção, os próprios silêncios a colaborar na significação e clareza do discurso.
- Vá, não se faça de rogado!
E aí estava eu metido na pele dum simples narrador, Xerazade masculino, a encher o vazio das horas, a dar voz à mudez das coisas. Numa sintaxe fácil, natural, sem parágrafos e sem capítulos, os episódios, encadeados, iam-se desenrolando diante daquela expectativa colaborante. E o interesse que lhe lia nos olhos, além do gosto de o verificar, apontava-me o caminho a seguir na própria literatura: o esforço de a tornar coloquial também, fraterna, generosa, dávida singela de um mortar a outros mortais.
- Muito gostava eu de ser capaz de inventar coisas assim!
- Fá-las inventar aos outros, o que é ainda mais bonito..."...

Miguel Torga, A Criação do Mundo IV

Comments