A História e as coisas vivas

"Prefiro, embora reconheça as contradições e a heterogeneidade do real ou do comportamento humano, tentar descobrir, por detrás dela, as harmonias dessa espécie de fantástica sinfonia que é a História, feita da incomensurável mistura de elementos de toda a espécie, tão dispersos e contraditórios como a própria vida, mas de cuja rede infinitamente complexa é fascinante procurar os eixos, os encontros e desencontros, os paralelismos e as divergências.(...) a observação do passado não se destina a um macabro trabalho de desenterrar mortos. Não é uma viagem ao reino das sombras, nem pode resultar de uma predilecção bafienta pelo que o tempo esterilizou. O que está morto, está morto. De facto, só me interessam as coisas vivas, que me interpelam, que se metem comigo. Só me interessa o presente e a maneira de me movimentar no espaço e no tempo em que vivo. Quero com isto dizer que só me atrai, no passado, aquilo que me permite compreender e viver o presente. O que acontece, é que, para o compreender, não me basta conhecer uma pequena parcela, tenho de o conhecer todo, não, obviamente, em todos os pormenores, mas como uma totalidade na qual tenho de me inserir. Também não posso escolher da história só aquilo que me agrada, mas também o que me incomoda, ou até o que põe em causa as minhas ideias, nas sucessivas interpretações que, nas diversas fases da minha vida, vou dando à realidade. Ora, é de uma constante tentativa de comparar o presente com o passado, que resultam as principais alterações da minha maneira de ver a sociedade e o mundo. Para mim, portanto, a História não é a comemoração do passado, mas uma forma de interpretar o presente. Ao descobrir a relação entre o ontem e o hoje, creio poder decifrar a ordem possível do mundo, imaginária, porventura, mas indispensável à minha própria sobrevivência, para não me diluir a mim mesmo no caos de um mundo fenomenal, sem referências nem sentido."

José Mattoso, A Escrita da História, p. 10, 21 e 22

Comments

margarida. said…
só nao estou a perceber de onde vem essa resistência a citar Agostinho da Silva...
Castro said…
tem calma..
Andas a provocar a minha ira...