Do nomadismo ao sedentarismo ou da circunferência ao quadrilátero

Pormenor da planta de Florença (L. Benévolo)
Aglomerado nómada (África)

Tenho andado a pensar (uhhh) sobre a razão do predomínio do ângulo recto, do rectângulo na existência do Homem e consequentemente na humanização do território.

Parece-me que poderá fazer algum sentido relacioná-lo directamente com o advento do sedentarismo. Não que tenha surgido somente neste momento, mas sim que tenha ganho preponderância, assumindo-se como suporte estrutural deste modo de vida em sociedade. 
Vejamos as tribos nómadas africanas, e as suas implantações temporárias. Reparamos que mesmo em construção leve (tendas, etc) optam por uma estrutura de base circular. Isto decorre da facilidade de "fundação" daquele momento "urbano", Um ponto central suporta e organiza o abrigo. Depois é só montar o resto da estrutura secundária até construir uma casa. Mesmo quando a técnica permite a execução do "canto", poderemos por vezes reparar a adopção da construção contínua  em curva. Mas com este tipo de implantação o desperdício de área urbana é grande. Sobra espaço sem definição funcional, mas que permite uma sociedade sem hierarquias, e de estrutura familiar. 
Então porque o quadrilátero? E não o hexágono como matriz urbana, e consequentemente cultural?
Pensemos nas necessidades do sedentarismo...Estabelecer um aglomerado, que com o desenvolvimento torna-se cidade, que magnetiza em seu redor e vai atraindo cada vez mais população. Assim o fenómeno da aglomeração, da necessidade de rentabilizar o território, e sua organização promoveu  o ângulo recto. 
Esta regra traduz-se em várias escalas e áreas e não só na arquitectura. Quanto tentamos desenhar e imprimir convites, por exemplo, na óptica da economia de meios e rentabilidade sabemos que o melhor formato é o rectangulo.
O quadrilátero é a forma mais flexível, tanto em escala, como em regra. Isto é, enquanto que o hexágono permite a criação de uma matriz rentável, esta apresenta um grave entrave. Permite um número muito reduzido de escalas e variantes de unidades de aglomeração, o que significa à partida ter uma sociedade equalitária, e sem hierarquias. Mas em sociedade esta estrutura nunca foi a chave de partida e raramente foi o ponto de partida. A civilização sempre se pautou por autoridade e povo, por ricos e pobres, por grande e pequeno. 
Neste ponto de vista também o quadrilátero na sua flexibilidade, é a UNIDADE que ajuda a afirmar toda uma sociedade e cultura assente em poder e subjugação, em economia e rentabilidade.

Comments

filipe said…
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filipe said…
pensemos ainda na economia de esforço no aparelho da pedra ou de tijolo, elementos matericos fulcrais na origem das arquitecturas na fundação das cidades: aparelhar uma pedra ou tjolo curvo é um trabalho dificil e desperdiça material enqto aparelhar ou moldar algo rectangular é muito mais economico..o angulo recto na arquitectura é tb mais vantajoso a nivel estrutural no encontro de duas faces/paredes.
Castro said…
Obviamente que tens razão, e não me esqueci dessas relações. Apenas esses sempre foram os argumentos e características lançadas para a mesa. Neste texto procuro olhar somente no enquadramento da relação existente entre a sociedade sedentária e uma tipologia formal arquitectónica.
goli said…
ah caraças... ele ta mm com vontade de vir a ser um Faup teacher! lol.... Continua, tas n bom caminho :P
"desperdiça material enqto aparelhar ou moldar algo rectangular é muito mais economico..o angulo recto na arquitectura é tb mais vantajoso a nivel estrutural no encontro de duas faces/paredes"

Direi obviamente estão enganados. Estes são argumentos falaciosos e para desmonta-los basta um pequeno iglo. A forma recta pode desperdiçar mais material e a nivel estrutural nao é assim tão linear que facilite o que quer que seja, cada caso um caso. Veja-se a obra de Eladio Dieste ou do Niemeyer, para além que as esquinas na sua grande maioria pa são ela sim um desperdicio de espaço pela sua nao relaçao com o corpo humano. Ok, prontuss... sevem pa mijar ou então para os vasos.
é preciso cuidado com essas generalizações e dicotomias que nao levam ha lado nenhum a nao ser tornar confuso um discurso... ha milhares de exemplos de formas curvas realizadas pela sua economia, funcionalidade, facilidade de construção, antigas modernas contemporaneas... veja-se o caso da arq/eng industrial moderna, dos castros... etc
ps:

o tal espaço sem definição funcional, depende de muita coisa inconsciente, e de darmos uma função akilo k pela sua natureza ja funciona... brinkando um poko kom isto fçamos uma paralelo com akelas cercas das moradias, com um metro d altura, para que servem?... isso levarianos para o fundamento do fundamento